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14 março, 2010

Confissões à la Jorge Luís Borges


No inverno de 1905, quando ainda passava os dias e as noites a dedicar-me aos livros da biblioteca de meu pai, em Gualeguay, solitário e absorto num mundo ficcional, lembro ter encontrado, perdido entre as folhas de um bonito volume de As Metamorfoses, de Ovídio, uma carta datada de 1772, endereçada ao coronel Martín Cruz, meu bisavô. Curiosamente, nessa carta confusa e cheia de referências a acontecimentos da época, por isso mesmo, ignorados por mim, o remetente mostrava-se anônimo, sem qualquer assinatura ou rubrica. Insisto em achar curioso, pois a carta era claramente o esboço da autobiografia desse homem sem nome, que poderia ser qualquer um.
Um trecho dessa carta me foi especialmente gravada na memória como uma necessidade imediata, e que até hoje eu satisfaço, toda vez que me lembro dela.

“Meu espírito vivo e sensível, devo às noites intermináveis em que passávamos, meu pai e eu, a ler volumes e volumes pertencentes à biblioteca deixada por mamãe. Eram essencialmente romances, e o fim de cada um deles chocava-se suavemente com as primeiras luzes da aurora.”

Essas lembranças infantis, de um desconhecido do século XVIII, assemelhavam-se fantasticamente às minhas, de quando passava as noites a ler com meu pai, volumes e volumes pertencentes à biblioteca deixada por mamãe. Eram essencialmente romances, e o fim de cada um deles chocava-se suavemente com as primeiras luzes da aurora...

Leituras:
Confissões, Jean-Jacques Rousseau
O aleph, Jorge Luís Borges

1 comentários:

Wilson disse...

Muito bom o conto Livia. A nostalgia com os livros lembra um pouco Borges mesmo.
Abraço =)

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