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Mostrando postagens com marcador Mix literário. Mostrar todas as postagens
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18 fevereiro, 2013

Elvis não morreu


Nunca contei a ninguém: conheci Elvis Presley. Foi um momento muito estranho, e tão mórbido, que as palavras nunca conseguiram sair de minha boca, como se tivessem se dissolvido feito areia e sido enterradas na memória.
                        Foi numa tarde quente do verão argentino, numa casa nos arredores de Buenos Aires. Era a casa de um amigo, nos víamos frequentemente embora não fossemos propriamente íntimos. Conhecêramo-nos anos antes, através de amigos em comum, em um encontro inesperado, numa livraria, no centro da cidade. Recordo que me surpreendi enquanto falava entusiasmado sobre um autor também argentino – Adolfo Bioy Casares – que reconhecia como o melhor autor latino-americano do século XX. Minha surpresa deitara preguiçosamente no fato de nunca ter ouvido falar em tal nome, e no tom veemente, quase que obsessivo, em que ele falava.

                        Cheguei em sua casa por volta das três da tarde. Recebeu-me como de costume: cordial, mas reservado. Conversamos por algumas horas e de tempos em tempos interrompia o pensamento, pedia licença e sumia pelo corredor estreito que levava ao interior da casa. Nesses momentos, eu podia distinguir a voz melodiosa de Elvis, que parecia ressoar do chão. Na quarta vez em que a canção começou a tocar, um pouco ansioso e visivelmente incomodado, pediu que o acompanhasse até o porão da casa. Á medida que descíamos as escadas, a voz de Elvis aumentava, e o que era mais estranho é que parecia real e não uma gravação ou sua voz no rádio. Senti meu sangue congelar quando o vi lá, no fundo do porão, vestido como em seu último show, cantando e dançando. Era Elvis. Diante de minha cara de terror e fascínio, meu amigo lentamente contou-me que havia criado uma máquina muito parecida com aquela do romance de Bioy Casares, e que num show, da década de 70 – seu último show – havia capturado a imagem do cantor que eu, ali, presenciava. Dois meses depois, Elvis foi encontrado morto no banheiro de sua mansão, pela namorada.

Leituras:
O pequeno livro do Rock - Hervé Bourhis
A invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares

14 fevereiro, 2012

A viagem paralela



Cândido encontra Federico Mayol em Portugal enquanto ambos viajam em busca de respostas, cada qual carregando sua pergunta.
- Com licença, o senhor é Federico Mayol?
- Sim, pois não, nos conhecemos?
Receio que sim, me chamo Cândido, de Voltaire.
Ah, já ouvi falar no senhor. Meu filho Julián conhece muito bem as gentes do seu tipo - balbuciou com uma certa indiferença.
- É mesmo? Que grande coincidência! O mundo está sempre a nos surpreender, o senhor não acha?
- Concordo com o senhor, eu mesmo tive muitas surpresas num curto espaço de tempo, apenas lamento que não foram muito agradáveis.
- Mas tudo está como deveria estar, senhor Mayol. Meu mestre Pangloss sempre diz que vivemos no melhor dos mundos.
- Melhor dos mundos? Como? Muito pelo contrário, meu jovem, está tudo errado,muito errado! Eu, por exemplo, sofri uma grande decepção por causa de minha própria esposa, nessa altura da vida ela me pediu que a deixasse e fosse embora, o senhor acredita? E meu filho Julián? O que dizer daquele metido a intelectual que vive num transe alcoólico (que ele diz ser artístico) pintando aquelas telas amadoras?
- Calma, senhor Mayol, é apenas ficção, e a melhor de todas as ficções que poderiam existir, pois tudo ocorre da melhor maneira...


Leituras
Candido - Voltaire
A viagem vertical - Enrique Vila-Matas

12 dezembro, 2010

O homem que foi embora para Pasárgada




Algum raio solar apareceu de repente e ofuscou minha visão por uns momentos. Fechei os olhos. “Que delícia será quando chegar lá!”Pensei ainda de olhos fechados. “Muita gente está a minha espera. Já imagino o bafafá, as senhoras ansiosas, as crianças exultantes, os marmanjos curiosos porém comedidos. Ah! Parece até que o rei vai chegar!” Sorri docemente com esse pensamento. 
É certo que fazia muitos anos que não aparecia na cidade, que não dava notícia nenhuma, por isso mesmo devia ter me transformado numa espécie de mito, alguém encoberto de mistérios e fantasiado de boatos. "O que será que pensam de mim? Que sou um sujeito que foi embora e fez a vida na cidade grande? Ou um matuto qualquer que acabou preso, 12 horas por dia, numa fábrica fumacenta? Ou ainda um cafetão, um malandro ou um alcoólatra? Não importa o que pensem, quero chegar lá e sentir a brisa suave, o canto dos pássaros, a vida morna, o tempo quase inerte. Não posso deixar de pensar também nas regalias que terei, na atenção que receberei, nos presentes diligentemente comprados e guardados até minha chegada. Sem falar nas jovens senhoras que aguardam pacientemente um bom casamento, e que verão em minha figura a possibilidade de tal realização. Ah! Realmente é o rei que chega!
Abri os olhos ao ouvir a voz aveludada que saía pelos auto-falantes: “Próximo ônibus  com destino à Pasárgada, portão 13, 15 horas”.
“Ah, Pasárgada, terra da minha infância, perdida nos confins desse Brasil...” Peguei minha modesta mala e subi naquele ônibus rumo ao paraíso.

Leituras:
70 historinhas - Carlos Drummond de Andrade
Itinerário de Pasárgada - Manuel Bandeira

25 outubro, 2010

O enigma húngaro

 
               
Pra lá dos sete reinos, à beira de uma imensa floresta, vivia um monarca que possuía um belo castelo de ouro. No entanto, esse monarca vivia melancólico e imerso em profunda tristeza. A razão dessa tristeza é que seu único filho era um homem centenário, enquanto que o monarca contava menos de 60 anos. Seu grande medo era que seu querido filho, o príncipe que deveria herdar seu reino, morresse de uma hora para outra devido a sua avançada idade. Então, o monarca resolveu tentar a sorte. Encheu seu cantil de vinho, guardou uma provisão de pão e partiu. Andou durante 7 dias e 7 noites até encontrar uma grande cidade. Logo na entrada da cidade encontrou uma velha que assim o interpelou:
- Bons dias, meu filho. Que bons ventos o trazem a essa cidade?
- Que a senhora tenha bons dias, avozinha. Vim encontrar a cura para a doença que deixa meu filho 10 anos mais velho a cada aniversário.
- Vá adiante e encontrará um castelo de prata, lá vivem uma criança, um jovem e um idoso. Converse com eles e terá a resposta que procura.
O monarca agradeceu e continuou sua caminhada. De fato, depois de andar o equivalente a um tiro de espingarda, avistou o castelo de prata. O portão estava aberto, por isso entrou. No imenso jardim que circundava o castelo viu um menino brincando de correr. Quando chegou perto, percebeu que tratava-se de si próprio quando era criança.
- Ei, menino! Você sou eu! Como isso é possível?
A criança calmamente respondeu:
- A resposta que procura está na letra J.
Assim que proferiu essas palavras, correu para longe atrás de uma borboleta azul.
Do outro lado do jardim, o monarca viu o jovem de quem a velha havia falado, e, para sua surpresa, o jovem também era ele próprio quando adolescente.
- Mas quem é você, rapaz??? - Exclamou estupefato.
- A resposta que procura está na letra L. – Respondeu o jovem ainda mais calmamente.
O monarca já furioso foi até os fundos do jardim, onde um velho já passado dos cem anos cuidava de algumas plantas. O monarca examinou-o de cima a baixo e concluiu que era sua própria versão quando se tornasse muito idoso.
-Diabo! O que o senhor tem a me dizer??
- A resposta que procura está na letra B.
E entregou ao monarca um livro. Na capa estava escrito LIVRO DE AREIA,  e embaixo, J.L.B.
- Leia o primeiro conto e entenderá.

Leituras:
O livro de areia - Jorge Luis Borges

22 junho, 2010

Romance do Pastor amoroso



Debaixo dessa figueira
Senta, o poeta a olhar
Mira, de longe, o horizonte
Cuida da ovelha a pastar
Pastor de palavras sim
Conduz, vela, alimenta
Natureza-Musa inspira
Quer tudo simples assim
Ser, em outro ser, habita
É Mestre, independente e
Artista, num só engenho
Orbita, tripla alma, fim.

E o início, narrativa coesa
Me inspira a cultivar esse jardim.

Leituras:
Poesia completa de Alberto Caeiro,  Fernando Pessoa
Romaceiro da Inconfidência, Cecília Meireles

29 maio, 2010

O (Sá) Carneiro e o lobo da estepe




Não sou eu, nem sou o Outro
Não sou Carneiro, nem sou lobo
Através da arte me elevo
Mas em minha humanidade me conservo

Sou lobo, sou homem
Sou selvagem, samaritano
Sou um feixe de mil hastes
Não sou nada que me baste

Passeios discursivos dou agora
Sujeito sem eu, em abismo
Cai na corrente literária
E volta à crise do início.

Leituras:
O lobo da estepe, Herman Hesse
Poesia, Mário de Sá Carneiro

13 abril, 2010

Desabafo do Exílio


Minha terra tem mais homens
Que vivem a cortejar
Minha querida esposa que resiste
Bravamente até eu chegar

Tempestades, redemoinhos e naufrágios sofrerei
Por Calipso, Polifemo e Circe hei de passar
Do canto da sereia e do monstro Cila vítima serei
Para finalmente a minha terra retornar

Minha terra tem marmanjos
Que com flechas vou furar
Até de mendigo me disfarcei
Para ninguém desconfiar

Não permita, Atena, que eu morra
Sem que antes chegue lá
E acabe com a festa desses canalhas
Que a minha mulher querem tomar!

Um doce pra quem descobrir o autor desse desabafo :D

14 março, 2010

Confissões à la Jorge Luís Borges


No inverno de 1905, quando ainda passava os dias e as noites a dedicar-me aos livros da biblioteca de meu pai, em Gualeguay, solitário e absorto num mundo ficcional, lembro ter encontrado, perdido entre as folhas de um bonito volume de As Metamorfoses, de Ovídio, uma carta datada de 1772, endereçada ao coronel Martín Cruz, meu bisavô. Curiosamente, nessa carta confusa e cheia de referências a acontecimentos da época, por isso mesmo, ignorados por mim, o remetente mostrava-se anônimo, sem qualquer assinatura ou rubrica. Insisto em achar curioso, pois a carta era claramente o esboço da autobiografia desse homem sem nome, que poderia ser qualquer um.
Um trecho dessa carta me foi especialmente gravada na memória como uma necessidade imediata, e que até hoje eu satisfaço, toda vez que me lembro dela.

“Meu espírito vivo e sensível, devo às noites intermináveis em que passávamos, meu pai e eu, a ler volumes e volumes pertencentes à biblioteca deixada por mamãe. Eram essencialmente romances, e o fim de cada um deles chocava-se suavemente com as primeiras luzes da aurora.”

Essas lembranças infantis, de um desconhecido do século XVIII, assemelhavam-se fantasticamente às minhas, de quando passava as noites a ler com meu pai, volumes e volumes pertencentes à biblioteca deixada por mamãe. Eram essencialmente romances, e o fim de cada um deles chocava-se suavemente com as primeiras luzes da aurora...

Leituras:
Confissões, Jean-Jacques Rousseau
O aleph, Jorge Luís Borges

09 março, 2010

O caso de H[arry]. P[otter]. Lovecraft


Houve um caso de desaparecimento extremamente curioso há um tempo atrás, nas proximidades de Hogwarts. Um rapaz com seus 14, 15 anos, chamado Harry Potter, foi visto pela última vez entrando em seu dormitório. Logo após, testemunhas afirmam que houve um forte clarão vindo de sua janela, e barulhos estranhos e agudos foram ouvidos durante aproximadamente 15 minutos, sobressaindo uma voz áspera e nunca antes ouvida por nenhuma das testemunhas, que notaram um tom cavernoso e horrendo naquele timbre infernal. Os instantes seguintes foram inesquecíveis a todos os que habitavam o mesmo andar que Potter, já que um odor acre fortíssimo serpenteou para fora daquele quarto misterioso.
    Na manhã seguinte, os colegas mais próximo do garoto notaram sua ausência e deram o alerta a todos. Na mesma tarde, dois dos colegas de Potter, Hermione e Rony, preocupados com o sumiço do pobre menino, decidiram penetrar no quarto de forma secreta, já que havia sido selado para uma posterior investigação da polícia.
    Ao cair da tarde, percorreram sorrateiramente os corredores da escola e finalmente conseguiram esgueirar-se para dentro do dormitório. Estava como de costume: tudo bem arranjado e sem nada fora do lugar, apenas a cama estava desfeita, o que indicava que Harry havia dormido ali, e, possivelmente, teria desaparecido na madrugada ou na aurora. Hermione sentou na cama insatisfeita, depois de ter exaustivamente examinado cada canto do quarto, quando bateu levemente o pé em alguma coisa pesada embaixo da cama. Abaixou-se para ver o que era e um uivo angustiante escapou de seus lábios repentinamente. Seu horror foi tão intenso que foi parar à beira da porta, de onde não saiu, nem mexeu sequer um músculo, por alguns minutos. Rony correu até a amiga, tentou falar com ela, mas o espanto e o terror petrificaram-na totalmente. Então, ele mesmo foi até a cama e levantou a colcha: seu susto durou menos tempo mas foi igualmente intenso. Assim que recobrou a lucidez, vislumbrou um corpo disforme, do tamanho de um animal de pequeno porte, negro, de uma textura que não se assemelhava a nada que ele havia visto. Ao lado do corpo inerte, Rony notou um papel dobrado, corajosamente esticou o braço e alcançou o papel, desdobrou-o e viu que se tratava de uma carta endereçada a um tal de H. P. Lovecraft, na qual uma caligrafia medieval portava a seguinte mensagem:

Caro Lovecraft,

Chegou até nós, esta tarde, a notícia que tanto esperávamos, estamos muito contentes com o seu retorno e esperamos ansiosamente sua visita. O que realmente me impressionou foi o fato de ter escolhido um corpo tão jovem para encarnar, mas claro que entendo sua preferência por bruxos, e foi especialmente irônico ter escolhido alguém com as suas iniciais. Outro motivo de alegria para mim é saber que evocou Você-sabe-quem com tanta mestria e que as palavras usadas para tal evocação foram pronunciadas pela primeira vez por mim. Aqui na Transilvânia as coisas andam difíceis, as pessoas andam muito desconfiadas e não se pode conseguir sangue fresco tão facilmente. Acredito que com sua presença a situação irá melhorar. Venha em breve, por favor.
Drácula

Leituras:
Drácula, Bram Stoker
Série Harry Potter, J. K. Rowling

02 fevereiro, 2010

A lenda da origem de Macunaíma

Conta-se que Macunaíma tem sua verdadeira origem n’O Cortiço. Nasceu daquela lama sórdida e luxuriosa, borbulhante de sensualidade, fétida de mediocridade e empesteada de uma langorosa preguiça moral. O herói, como não poderia deixar de ser, cresceu e tornou-se esse que já conhecemos: amoral, tarado e preguiçoso. Enquanto pôde, brincou com todas as fêmeas disponíveis no cortiço de João Romão e arredores, inclusive com Zulmirinha. Depois de uma puberdade ativa e fértil mudou-se para o Amazonas onde começa sua aventura após a perda da muiraquitã.

Imagem do cortiço daqui
Leituras:
O cortiço, Aluísio Azevedo
Macunaíma, Mário de andrade

26 janeiro, 2010

Emília no País das Maravilhas




Depois de ter mandando a pobre Alice para o país errado, Emília ainda pensou por longo tempo naquela personagem peculiar. Pediu ao Visconde o exemplar do livro de Alice, pedido este que foi prontamente atentido pelo sabugo que olhava desconfiadamente para aquela boneca atrevida. Emília abriu o livro, e em um piscar de olhos, estava numa toca de coelho.
-Ahhhhh! – Gritou apavoradíssima – Onde estou??? Maldito livro, maldita Alice...! Enquanto praguejava percebeu a menina alguns metros à frente, olhando-a de modo amistoso. Alice aproximou-se.
-Emília! Você por aqui? – Lembrou-se da última vez que haviam se encontrado e pensou que podia se divertir dando o troco na boneca. – Desta vez, sou eu quem te propõe um desafio. Aceita?
-Desafio? – Emília estreitou os olhinhos, desconfiada – Tá bom, mas não tenta dar uma de espertinha pra cima de mim não, hein!
-Tudo bem, não se preocupe. Se você acertar, eu te mando de volta àquele adorável Sítio do Pica-Pau Amarelo, no entanto, se você errar, você será minha eterna companheira aqui no País das Maravilhas.
-Cruz credo... – Balbuciou a boneca fazendo o sinal da cruz – Vai, pergunta logo...
-Se o seu criador é o Monteiro Lobato, e ele já faleceu, como é que você está aqui nesta história comigo?
...
E desde então, a Emília nunca mais foi vista no Sítio do Pica-Pau Amarelo...

- Ei, peraí, como assim nunca mais foi vista no Sítio do Pica-Pau Amarelo? Quem é você pra decidir isso, hein??? (Voz irritada da Emília)

24 janeiro, 2010

Bentinho procura Sherlock


-    Oi, o senhor é o Sr.Sherlock Holmes?
-    Sim, o que o senhor deseja? – Holmes perguntou enquanto acendia seu cachimbo tranquilamente.
-    Sr. Holmes, eu sou o Bentinho, muito prazer – Estendeu a mão com um olhar amistoso mas visivelmente agitado e desconfortável.
-    Prazer...O senhor deve ser brasileiro, se não estou enganado.
-    Sim, sou sim.
-    Foi o que pensei, o seu nome é bem típico.
-    É... Bem, Sr. Holmes, eu vou direto ao assunto: eu preciso da sua ajuda para descobrir se minha mulher me traiu ou não.
Holmes olhou para Watson que se encontrava num canto da sala, lendo o jornal, porém prestando atenção à conversa e ao novo visitante. Watson retribuiu o olhar de modo significativo.
- Quais são suas suspeitas, Sr. Bentinho? – Perguntou demonstrando uma certa indiferença.
- Eu acho que minha mulher, Capitu, me traiu com um amigo já falecido, e suspeito também, que nosso filho seja na verdade filho dele. – Bentinho falou tudo de uma vez, num tom baixo e áspero, assim que terminou, parecia um tanto aliviado.
-Sei... E o que o leva a pensar que ela tenha traído o senhor com esse cavalheiro que faleceu?
- Bom, na verdade não existe nenhum fato concreto que me leve a suspeitar dela, tudo o que eu tenho como suspeita é um olhar de tristeza e saudade que pude perceber em seus olhos no enterro desse nosso amigo, que ela lançou tão comovidamente sobre o túmulo. E, também, não posso deixar de negar que o nosso filho se parece muito com Escobar, meu amigo falecido.
- Ora, senhor, me perdoe, mas estas suspeitas são baseadas em suposições de um marido ciumento unicamente. Como o senhor mesmo relatou, não há nenhuma prova concreta desse adultério, e desde que o suposto amante se encontra dentro de um caixão, a sete palmos da terra, posso dizer sem sombra de dúvida que é praticamente impossível descobrir se algo realmente aconteceu entre os dois – Holmes falava num tom impaciente e quase ríspido, não tinha tempo para tratar de um caso que poderia muito bem ser fruto da mente ciumenta daquele homem. A não ser, é claro – continuou um pouco mais calmo, vendo a expressão desapontada do pobre homem – que sua mulher confesse o acontecido.
-Não, Sr. Holmes, estou aqui escondido, quero dizer, não quero que Capitu suspeite de nada, simplesmente não posso chegar e perguntar a ela: Olá, meu amor, você por acaso me traiu com Escobar? Não, não, isso nunca.
A impaciência de Holmes explodiu. – Sr. Bentinho, o senhor tem um volume de sua obra de origem? – Sim, respondeu ele, entregando um bonito exemplar de Dom Casmurro ao detetive. – Muito bem, analisarei a obra e se descobrir alguma coisa eu aviso o senhor, obrigado, tenha um bom dia. Logo que Bentinho saiu, Holmes iniciou a leitura do livro, o qual terminou em dois dias.
-Watson, é realmente impossível saber se essa traição aconteceu lendo este livro, acho que a única saída é conversar com esse senhor Machado de Assis. – Olhou, decidido, para o amigo, acendeu o cachimbo e disse: Watson, chame um carro de aluguel.

18 janeiro, 2010

Conselhos amorosos ao jovem Werther



Caro jovem desventuroso,
Soube do amor não correspondido que nutre por uma mulher. Eu sei, é uma dor profunda como se tivesses uma pedra a esmagar o coração, mas lembre-se: “Muitas vezes a desventura incita o engenho.”, e é nisso que precisa se concentrar. O ideal a fazer é seguir algumas orientações que alegremente lhe darei, através de algumas regras que fixei, para que consiga atingir seu objetivo.

1º “Despoja-te de todo orgulho se queres ser amado por longo tempo.”  Sim, caro amigo, o orgulho é o maior iminigo daquele que ama e quer ser correspondido. Se pensas que o amor dessa mulher vale o teu orgulho, muito bem, prossiga.
2º Vá ao primeiro baile que ela for. Tome uma garrafa de vinho e “Faze com que tua língua fingidamente pronuncie palavras gaguejantes, a fim de que se cometeres algum atrevimento, por palavras ou atos, tal coisa seja atribuída ao excesso de vinho.” Seja ousado! Este é o momento em que apostará todas as suas fichas para arrebatar-lhe o coração.
3º e último, depois de conquistada,  “Faze com que tua amante se acostume contigo; nada há de mais poderoso que o hábito.”
Espero sinceramente que essa breve carta venha em seu socorro, pois sei que se encontra desesperado.

Cordialmente
Ovídio

Leituras: 
Os sofrimentos do jovem Werther, Johann Wolfgang Von Goethe
A arte de amar, Ovídio

15 janeiro, 2010

Sherlock joga Detetive


- É sua vez, Holmes.
- Senhores, desvendei o enigma: o assassino foi o Sr. Marinho, com a corda, na sala de jantar! – Pousou o olhar triunfante sobre os outros cavalheiros, seus companheiros de profissão: Sam Spade e Auguste Dupin, que o fitavam incrédulos.
- Como conseguiu ganhar o jogo sem nem mesmo ter começado a jogar, Holmes? – perguntou, surpreso, Dr. Watson que observava os três personagens jogarem.
- Convenhamos, Watson, a sorte me foi muito favorável quando me permitiu ser o último a jogar. Observei a primeira jogada de cada um dos meus adversários e triunfei. – Watson continuava olhando-o de maneira incrédula – Ok, Watson, vou esclarecer o caso pra você.
De acordo com a jogada do Sr. Spade, soube que definitivamente não poderia ser o Coronel Mostarda com a faca. Como possuía o revólver e o castiçal, só restava a corda, já que as outras armas imaginei que Dupin tivesse, pois percebi como ele reagiu quando Spade mostrou a sua carta. Eliminando o já citado Coronel Mostarda, D. Branca e Srta. Rosa, que eu possuía, e D. Violeta e Prof. Black que Spade possuía, achei sensato pensar que o assassino era o Sr. Marinho!
Vamos ao aposento: Pela forma como Dupin organizou suas cartas, deduzi que ele possuía quatro aposentos os quais, seguindo seu olhar para o tabuleiro, percebi serem o escritório, a sala de estar, a sala de música e o salão de festas. Eu possuía a biblioteca, o hall e a cozinha; Sam, ao anotar as cartas, direcionou o lápis apenas uma vez para o alto do papel (onde deveríamos anotar os aposentos), portanto só deveria ter pego um aposento, que supus ser o salão de jogos, de acordo com a sua jogada, então só restava a sala de jantar!
"Me superou..." pensou Dupin recolhendo as peças do jogo...

Leituras:
A volta de Sherlock Homes, Arthur Conan Doyle
O Falcão Maltês, Dashiell Hammett

12 janeiro, 2010

Alice no País da Gramática


- Quem é essa garota? – Perguntou apontando para uma linda menina que se aproximava com um coelho ao seu lado e um gato meio transparente pairando no ar.
- Olá, eu sou a Alice no país das maravilhas.
- Ih, errou de endereço então, minha filha, porque aqui é o Sítio do Pica-Pau Amarelo.
- Sítio do Pica-Pau amarelo?
“Meu Deus, achei que só os escritores ingleses tinham alucinações com animais falantes, mas aqui é pior, as bonecas também falam” – pensou enquanto era perscrutada pelo olhar curiosíssimo e desconfiado de Emília.
- Eu vou pregar uma peça nessa inglesinha de meia pataca! – cochichou para Narizinho que também olhava com curiosidade para aqueles personagens, e que já pressentia a confusão que a Emília ia arrumar.
- Ei, menina, quero te pregar, quero dizer, quero te propor uma coisa, é o seguinte: você vai ter que responder uma pergunta, se você acertar eu te mando de volta pro seu país das maravilhas, e se você errar – piscou com carinha de esperta para Narizinho – você me dá esse coelho barrigudo e esse gato esquisito aí, o que você acha?
Alice olhou com ternura os dois companheiros que não entendiam nada do que Emília falava, mas o que ela realmente queria era voltar pra casa, então aceitou o desafio.
- A pergunta é: Quem é o autor que me criou?
“Céus!” – pensou Alice – “Como eu vou saber o nome do autor que criou essa boneca peculiar?”. Para sua sorte o Gato de Cheshire sabia a resposta e soprou no seu ouvido.
- Ah! Já sei! Monteiro Lobato! – Falou a menina extremamente feliz.
Emília que estava certa que iria vencer, ficou furiosa quando ouviu a resposta certa. Pegou seu pó de Pirlimpimpim e, com muita raiva, jogou em Alice e seus dois companheiros. Na mesma hora, os três personagens aterrisaram num lugar muito bonito. Alice estava radiante, mas assim que olhou direito aquele lugar, achou que algo estava estranho, caminhou até uma enorme placa e leu: País da Gramática.

Leituras:
Aritmética da Emília, Monteiro Lobato

04 janeiro, 2010

Harry Potter e Frodo Bolseiro em Mortal Kombat

Potter: Vingardium leviosa!
Frodo coloca o anel. Um brilho intenso invade a arena, uma névoa espessa paira sobre todos, um barulho insurdecedor é ouvido. Quando o brilho aos poucos é ofuscado, quando a névoa se dissipa, e quando o barulho termina, os dois heróis não estão mais ali.
Quem venceu?
Você-sabe-quem.

Leituras:
O Senhor dos anéis, J. R. R. Tolkien
Série Harry Potter, J. K. Rowling

A metamorfose de Baleia

Tinha acabado de abocanhar uma barata que falhou em passar correndo pela cozinha. Enfiou seus dentes afiados na casca grossa conseguindo furá-la. Que gosto horrível!, mas era a coisa mais parecida com comida que via em dias. Mastigou penosamente aquela amargura crocante e engoliu de uma vez. O pobre estômago reclamou um pouco já que se acostumara a ser preenchido pelo vento. Deitou a cabeça nas patas dianteiras e tentou dormir um pouco, mas um barulho no estômago não permitia. De barulho passou a uma sensação estranha, que logo tornou-se uma dor nunca antes sentida pela pobre criatura. Fechou os olhos e a dor misturou-se com uma tontura nauseante enquanto, ainda com os olhos fechados, via uma explosão de luzes, cores, um som ensurdecedor e, de repente, silêncio. Alguma coisa muito estranha havia acontecido. Sentia-se muito maior do que o habitual, o olfato e a visão tornaram-se aterradoramente inusitados. Sentia falta do rabo e os pêlos estavam escassos, finos. Levou as mãos (ou seriam as patas?) à lateral do corpo onde alguma coisa fazia um volume incômodo. Colocou a mão num dos bolsos (onde estava o volume)e tirou uma carteira. Abriu-a e tirou o documento de alguém chamado: Gregor Samsa. Não estava entendendo o que aquilo significava. Será que Fabiano esperava por ele fora daquele quarto?

Leituras:
A metamorfose, Franz Kafka
Vidas secas, Graciliano Ramos

O mistério da morte de Brás Cubas

- Meu caro Watson, o caso desse senhor, Brás Cubas, um brasileiro que escreveu suas memórias após a própria morte, só pode ter uma explicação segundo minhas observações e investigações: ou este senhor não morreu, tem um ego só menor que o do próprio Freud e ao mesmo tempo necessitava passar-se por morto por algum motivo, ou um impostor ludibriou a todos escrevendo essas memórias alheias.
- Já ouviu falar em Ghost writer, Holmes?

Leituras:
O cão dos Baskerville, Arthur Conan Doyle
Um estudo em vermelho, Arthur Conan Doyle